terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Fortaleza/Convicção

Da Delegação distrital de Évora da APD transcrevo o seguinte comunicado:


Fortaleza/Convicção - Rumo à Inclusão

A ofensiva contra o «estado social» é, rigorosamente, «ofensiva contra a inclusão».
O Estado é o motor da inclusão;  é preciso que as pessoas com deficiência entendam/interiorizem este princípio incontestável.
O ataque ao Estado, acompanhado da mais vergonhosa propaganda que intimida as pessoas com deficiência, cujo acesso à informação alternativa, verdadeira, rigorosa, é restrito, gerando medo, descrença, desencanto, desespero, inclina-as a soçobrar, como se esta prática de recorte ultraconservador, espalhando o pensamento único, fosse inevitável. A ditadura marcelista foi mais generosa, iniciando, embora com passos tímidos, o processo tendencialmente inclusivo.
A venda da soberania, a abdicação perante a troika, braço executor da ditadura do capital, é o mais nítido retrato deste dês-governo que conduz a exclusão a séculos pretéritos.
As pessoas com deficiência são vítimas, não lhes é imputável a crise. O mais selvagem conservadorismo, a mais perniciosa corrupção, eis os responsáveis! Quando se fará «julgamento justo» ao clima de latrocínio e corrupção dos últimos 33 anos? Quando serão punidos exemplarmente os corruptos?
As pessoas com deficiência devem interpelar o poder, porque os seus direitos humanos são espezinhados, o mesmo direito à vida é ameaçado, repetindo a violação impune da última década do sc XX, (morte de dezenas de pessoas com deficiência) face aos brutais cortes na saúde, ameaça de morte sobre pessoas com deficiência, necessitadas de cuidados especializados; reaparece a exclusão educativa; nenhuma medida de discriminação positiva no emprego é tomada, quando o desemprego atinge proporções de escândalo; as políticas sociais são, simplesmente, destruídas; a pobreza, a fome, a miséria, a doença, a exclusão, já não podem ser escondidas; maugrado a imposição de critérios de censura à comunicação social, a «verdade nua e crua» aparece, todos os dias; salvo se retomar a censura do «lápis», o governo está desmascarado! A crise é «mero pretexto»: para desencadear a revanche ideológica; o castigo ao povo, pela ousadia de fruir a liberdade; às pessoas com deficiência, por aspirarem à inclusão.
A DDE/APD erguerá a voz, sem mais disfarces, para que todas as pessoas com deficiência tomem, definitivamente, consciência das reais ameaças que pendem sobre: os seus direitos, as suas vidas, as suas garantias, a exigência de inclusão.
Dizendo, com voz firme, a verdade, atrai a agrimónia dos que já não enganam ninguém; mas antes morrer com dignidade, cumprindo o dever, que assistir, passivamente,  ao cortejo de calamidades que se abatem sobre nós.
A DDE/APD apoia todas, mas todas as manifestações e acções de luta que pretendam defender: os direitos humanos; a legalidade democrática, acatando a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a legislação, tudo quanto contribua para o regresso à construção da sociedade inclusiva.
Tibiezas, fraquezas, preconceitos, conformismos, apego a ilegítimas benesses, quaisquer escusas para o silêncio, são passos que conduzem à exclusão, sinal de terrível apocalipse civilizacional.
Exortamos as pessoas com deficiência à mais ampla e visível participação na manifestação convocada para 16 de Fevereiro de 2013, - Évora, Praça 1.º de Maio, 10.h.30m - conscientes do significado da luta, expressão do compromisso rumo à inclusão.

O porta voz

domingo, 23 de Setembro de 2012

A Tragicomédia Acabou


A tragicomédia acabou como começara; convocados pelo guardião do capital, os mandaretes reuniram, bem escondidos, melhor protegidos, pois a fúria popular assusta-os; lá estava o pai tirano, não sublime e menos digno, fingindo aconselhar os rapazinhos ignorantes, servis, amedrontados.
À volta do conclave do capital teceram os cães de guarda tremendo barulho, inventando notícias que não existiam, preparando a bênção do roubo, concedida pelos ministros do capital; «a montanha pariu um rato»!... Eis a conclusão desta miserável campanha de intoxicação; hoje os cães de guarda, servidores dum dos patriarcas, vêm dizer, com sensacionalismo bacoco, que tudo tinha, afinal, sido negociado nas catacumbas dos mandaretes da ditadura do capital!
Que notícia velhinha! Quem não sabia? Quem tem ilusões sobre o projecto do «pai da desgraça» deste pobre país, nos últimos 35 anos? Porque se escondem?
Este «teatrinho», de péssimo gosto, foi representado para gáudio dos actores/personagens, para fingir democracia, para encenar manipulação, para repetir as mesmas manigâncias de alienação/intoxicação, enquanto fartam vilanagem, enquanto abarrotam os cofres, enquanto manobram para aplacar a revolta deste povo saturado de  roubos abençoados pelos deuses da ladroagem, enquanto os pobres têm «fartura de fome»!
A farsa está desmascarada, a representação foi péssima, não sabemos, mas imaginamos, o diálogo gasto entre os personagens/actores; sabemos que nada aconteceu, não há novidades na catedral da ditadura capitalista, tudo isto foi detestável fantasia; «tanto barulho para nada»!...
Aquele rapaz que dizem que governa, na sua «santa ignorância» afirmou que «sabe o que faz»; pois, se sabe, deverá ser julgado e condenado, porque estão provados, sem atenuantes, os inúmeros crimes de roubo aos trabalhadores; não sendo assim, não há, sabemos à muito, justiça.
Acabado o «teatro», «caído o pano», falemos, agora, da mudança! É imperativo mudar, é exigência popular acabar com este «estado de roubo»! Que fazer? O caminho não é novo, mas muitos têm-se perdido por «maus caminhos», temeram o «caminho luminoso/verdadeiro», acreditaram no «canto da sereia» e foram ao fundo... Sem luta não há mudança, sem protesto, nada sucederá, como ficou demonstrado por esta tragicomédia...
Sei que repito, mas faço-o por opção, por pedagogia, porque, hoje como sempre, pesa-me o sofrimento de milhões de companheiros, nesta Europa velhinha, destruída por horda de indignos ignorantes, berço de civilização humanista milenar.
Sou, todos sabem, adepto convicto da mudança! Não hei-de faltar, com a arma que posso, por enquanto, usar: «a palavra»! Sem tibieza, convido, convoco, faço apelo à presença em todas as manifestações que sinalizem, com luminosa claridade, o rumo da mudança. Quantas vezes abjurei a escrita concebida como «luxo cultural pelos neutrais»? Não abominei esta «frochidão», o conformismo, a apatia/indiferença? Por muito que repita, não serei capaz de imitar, nesta pedagogia dos direitos humanos, a infinita alienação/intoxicação espalhada pelos muitos escribas/escravos da ditadura do capital.
Acabada, pois, a tragicomédia, é hora do palco do povo, é tempo de representar, com serena autenticidade, a «real peça de teatro» que serve: a luta pela mudança!... Fazem falta milhões de actores, de verdadeiros personagens, às claras, na rua, «casa livre dos pobres»!... Nessa casa de dignidade, desenha-se a verdadeira mudança!...
Joaquim Manuel Cardoso

sábado, 22 de Setembro de 2012

Tragicomédia de Fim de Férias


O pai tirano esteve de férias e os filhinhos zangaram-se, pois o «tacho» do poder começa a esvaziar-se; os filhinhos, os bastardos e os legítimos, quais cães raivosos por devorar o osso,  brigaram; cada qual fez mais barulho que o outro;  os outros cães de guarda, a comunicação social, ampliaram as ladraduras ao infinito.
Regressado, o paizinho chamou os filhinhos desavindos, puxou-lhes as orelhas, e os cãezinhos amansaram e, para constar, fizeram em hotel caro, alumiados pelos holofotes dos mesmos cães de guarda, pago pelosexplorados, promessas de ser amiguinhos.
Esta metáfora tem referentes identificados: hoje vão representar mais uma comédia de mau gosto, lançar mais uma campanha de mistificação/intoxicação; que pode esperar-se de teatro: com guião antecipadamente escrito,  péssimos actores mais que conhecidos? O que surpreende é a vozearia que procura vender desacordos, onde o que reina é o medo do povo? Não esperemos nada deste «pobre teatrinho»!
Que não suportamos mais roubos, que não queremos morrer de fome, que não toleraremos mais miséria, que não desejamos mais pobreza para milhões e riqueza para um punhado de poderosos insaciáveis, que recusamos governantes fantoches, mandaretes submissos do colonial-fascismo europeu! Certíssimo! Mas não alimentemos ilusões: alargar, reforçar, fazer ouvir, em brados sonoros, a voz deste povo! Dizer que estamos fartos de ser roubados, bradar que é tempo de fazer pagar a crise a quem a criou, reclamar urgente mudança, proclamar a democracia, defender a soberania do povo, recusando o colonialismo, a fraqueza desta elite tão incapaz, tão servil e, sabe-se, tão corrupta,  isso consegue-se na rua, isso será fruto da luta, de largas e repetidas manifestações de descontentamento, com barulho forte, para que nos ouçam os nossos companheiros roubados em toda a Europa e, todos juntos, sejamos, de verdade, protagonistas da mudança!...
«o povo unido, jamais será vencido»! Faz-lhes medo esta consigna; porquê? Porque é real e verdadeira; por saberem isso, quanto gastaram em comprar «traidores», em semear todo cortejo de calúnias, em estimular todas as alienações? Como sabem fazer contas, sabem que o mito, o delírio, a vaidade, a estultícia, rendem; exploraram, com refinada mestria, esses instrumentos. Mas como a ganância, a cobiça, a «fome de dinheiro», são insaciáveis, foram longe, deitaram mão às velhíssimas receitas do fascismo, e os truques gastaram-se.
O povo já entendeu as razões desta loucura perigosíssima do capital.
Agora é hora do povo tomar, outra vez, nas suas mãos livres o seu futuro; e esse acto libertador determina a imediata e urgente expulsão desta elite. Para reabilitar, com visão humanista, este punhado de algozes, afastá-los do poder, ensiná-los a trabalhar, que alguns dos mais cruéis são meninos de «gravatinha» que nunca fizeram nada, salvo sugar o sangue e suor dos pobres...
Mas, porque «cuidados e caldos de galinha» nunca fizeram mal, mantê-los longe, não lhes volte, com redobrada sede de vingança, toda a crueldade que já mostraram.
Esta tragicomédia de fim de férias que vão representar não se pode repetir; não porque não queiram, mas porque o povo lhes feche o palco, lhes abra a porta de saída, sem retorno!
Não regresse o sono e a ilusão, a rua, «casa dos pobres» é o lugar da construção da mudança, é na rua que havemos de começar a arquitectar e construir «a casa de todos», isto é, a sociedade justa, fraterna e humanista!...
Joaquim Manuel Cardoso

terça-feira, 18 de Setembro de 2012

A Suprema Sentença do Adulador


A desorientação, a confusão, a ignorância são atributos facilitadores da ofensiva contra a democracia posta em prática nesta caduca Europa que inchava de direitos humanos, lá longe, especialmente onde o capital farejava, com faro aguçado, matérias-primas para roubar aos outros povos e fartar a carteira.
Esta elite, demente, desvairada, corrupta, recompensa, com magnanimidade, a ignorância,  a estupidez, a arte de ser «papagaio», falando muito, sem dizer nada.
Estes «papagaios», estes «roncadores», vivem na fartura, nadam na abundância, porque são escravos dos poderosos e insolentes com os pobres.
Esta «peste» estende-se a certos grupos na rede; alguns moderadores, simulando imparcialidade, querendo depurar conteúdos, arbitrariamente definidos, seleccionam as comunicações, aparentando rigor, aparência que se desvanece, ou porque estão distraídos, ou porque a «sapiência» não abunda; nunca se enganam, repetem sempre, a censura das mensagens de denúncia das atrocidades da ditadura do mercado, pois «farejam», quais perdigueiros, as «tocas de interesses».
Se isto é assim em grupos relativamente fechados, como seriam estes «moderadorzinhos» nos grandes órgãos de comunicação?
Que eficientes escravos do capital haveriam de ser!...
Esses grupos revelam, muitas vezes,  sócio-patologias, génese desta terrífica crise: da formidável alienação das  ditas «novas tecnologias», à subserviência aos poderosos; não sei se merecem «perdão», porque, parecendo ingénuos, «sabem o que fazem», e, sobretudo, o que esperam, como recompensa.
Recordo um velho amigo, quando, lúcido, dizia: «a ignorância é directamente proporcional à vaidade»! A ignorância tem certezas absolutas! – diz-se –
Tenho dúvidas se hei-de aconselhar os «servidores da comunicação»:
Que lhes acontecerá, quando «Abril vier»? Quem os adulará, nessa alvorada de liberdade? Quando a tempestade surge, foge-se; e os «papagaios» arriscam-se: a perder ouvintes/leitores; a perder as benesses; a ser reduzidos ao silêncio e condenados «ao negro vaso do esquecimento».
«o adulador» morre com quem adula!... velha lição do tempo, esse sábio e incorruptível mestre, que seria conveniente recordar: para atenuar, depois, a dor da perdição; para enxugar as lágrimas choradas, por causa da escravatura; para saber padecer o castigo justo; para consolar o «pranto e ranger de dentes», sentença suprema do  serviço à indignidade, à vileza, à falaz ilusão de transitórios triunfos!...
Joaquim Manuel Cardoso  

sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

Educação Inclusiva em Construção


A História da dita Educação Especial, em Portugal tem sido um calvário para os Deficientes, porque tudo tem sido imposto, prepotentemente pelos dogmatas dos diversos Ministérios da Educação, revestidos frequentemente de ignorância, submissos estrangeirados, burocratas de gabinete e democratas conversos.
Se é certo que, antes do 25 de Abril tudo era fruto da ditadura, é radicalmente inexplicável a persistência de comportamentos e procedimentos antidemocráticos – reminiscências da ditadura – sustentados nos ministérios, como fortalezas totalitárias, imunes aos ventos da democracia.
A Educação Especial tem evoluído, ao inverso, das restantes políticas de integração social dos deficientes, porque a integração tem sido imposta como estratégia de redução de custos, desvalorizando o sucesso, objectivo fundamental do Sistema Educativo, abjurando a Inclusão constante da Declaração de Salamanca, treslida pelos ignorantes dirigentes da Educação.
“A integração é o melhor sistema, excepto quando não é”; sem escolas adaptadas, sem professores preparados, sem material didáctico, sem ajudas técnicas, “a integração é despudorada mistificação” digna de aspérrima censura e veemente repúdio.
Os deficientes são os mais interessados na integração – 35 anos de luta certificam esse interesse – mas rejeitam e recusam esta farsa que, impunemente, de modo opressivo, lhes vem sendo imposta.
Como compreender, no final de cada ano lectivo, a erupção de atrozes e angustiantes projectos de redução de professores e desactivação de estruturas de apoio educativo? Estes procedimentos que vilipendiam os Direitos dos Deficientes serão a consciência de culpa pela manutenção dum esquema de compadrio e nepotismo? É absurdo que a educação, espaço de progresso intelectual, se revele, na hierarquia do Estado,  estrutura de recorte conservador, isto é, adversa ao diálogo, propensa à opressão/repressão, no limite da legalidade democrática.   
Surpreende a passividade dos Órgãos de Soberania às repetidas denúncias dos pais e organizações de professores e deficientes! É inaudito e inédito o esquecimento das inúmeras normas internacionais e nacionais, subditando à audição das organizações representativas dos deficientes todas as políticas e programas com impacto nas condições de existência destes cidadãos. Dizem, na Europa, as organizações de deficientes que deve ser julgada antidemocrática toda a legislação que não haja sido consultada com as ditas organizações.
Na base deste princípio, é - e tem sido -  antidemocrática a política de Educação para Deficientes promovida e praticada à 40 anos, em Portugal.
A defesa do Direito à Educação dos Deficientes deve ser intransigente, considerando-se, com carácter de urgência, a denúncia do Estado Português em todas as Instituições Internacionais Idóneas.
É lamentável que no limiar do 3.º milénio Portugal apresente, no  concerto dos países europeus, este estádio de subdesenvolvimento democrático!
O superior e inalienável dever de defender, no quadro da legalidade, os direitos dos deficientes exorta, exige e reclama firmeza e convicção no caminho da construção do Estado de Direito, apto a cumprir e fazer cumprir a Constituição e toda a Legislação que assegura, protege, promove e garante aos deficientes o direito ao sucesso educativo!...
Este ano excedeu-se tudo quanto de malfeitorias foi praticado, sob a ditadura deste governo cujos sinistros traços fascistas superam as menos imaginadas ilegalidades, conduzindo à destruição da «escola inclusiva», componente da política excluente, do terrorífico surto de fome, miséria, marginalização, que excita todos os medos, recomenda todas as protecções, prática ignorada, rejeitada por este governo, apostado no «destroço do país», como disse alguém insuspeito.
Elite dirigente que «asfixia a educação», condena a pátria à miséria futura, alarga os horizontes do subdesenvolvimento, semeia a pobreza, rouba o futuro…
«Até quando, rapazinhos dementes, abusareis da nossa paciência»?
 Até quando, toleraremos estes «jovens velhos», que apenas conhecem  as velhíssimas receitas da exploração/opressão?
Desvaneçam-se as ilusões! Cesse a mistificação! Existem alternativas, há outras soluções, são possíveis outras opções!...
Cabe-nos, sem escusas mesquinhas, tomar nas nossas mãos o nosso futuro «em inclusão»!....
«Educação inclusiva em Construção»! eis o lema mobilizador da mudança!...


Joaquim Manuel Cardoso

terça-feira, 11 de Setembro de 2012

O Sonho e o Pesadelo


Nos longos anos de activismo associativo, tenho acompanhado, com reservas, a evolução do desporto adaptado; não sendo praticante, não desvalorizo a componente inclusiva do desporto; sucede que, desde cedo, fui intuindo a evolução para a transformação do desporto adaptado em desporto de competição; essa mudança tímida, lenta, mas progressiva, mereceu, da minha parte, reservas e discordância. Sempre entendi que o desporto adaptado consumia volumosos fluxos financeiros, sendo preciso, para assegurar boas condições de prática e sucesso, fixar verbas, sem descuidar recursos técnicos,  conforto e segurança dos desportistas. Estas premissas não se verificavam, pois a crise das associações foi crescendo, enquanto se acumulavam «ilusões» sobre vitórias e sucessos previsíveis, na base de infundados sonhos. Um aspecto que sempre me impressionou foi a indiferença de grande parte dos desportistas face às crescentes e iniludíveis limitações económicas das associações;  os diversos governos alimentavam esses «sonhos», mas não atribuíam recursos que sustentassem a prática do desporto, especialmente a tendência para o desporto de competição. Mas, à semelhança do desporto sem adaptação, essa actividade servia, «às mil maravilhas», para a propaganda, para a alienação das massas, e, com tais réditos, aparecia o costumado espectáculo de «folclore», «hipnotização», «feira de vaidades», em torno do desporto adaptado, com gáudio pueril de atletas e dirigentes. Logo que Portugal  começou a participar nos Jogos Paralímpicos, iniciaram-se esses ritos de elogio, de publicidade dos governantes, com certa passividade de dirigentes, embora alguns fossem exigindo verdadeiras estruturas.  Os recentes Jogos Paralímpicos fizeram desvanecer as «ilusões do desporto de competição»; não faltou a costumeira propaganda, o discurso vago, vazio, como em todas as circunstâncias, do primeiro ministro, que, apesar da austeridade pregada para os pobres, lá foi para Londres exibir-se, utilizando o desporto adaptado. Os resultados afastaram-se das previsões facilitistas, revelando como a política excluente do Governo, atingiu o desporto adaptado, e, ao mesmo tempo, o impudor daquele governante que, vaiado em todo país, precisou de alimentar a vaidade, de inchar o ego, manipulando a participação nos Jogos Paralímpicos. Que lições futuras aprenderão desportistas e dirigentes? Serão, agora, recebidos, em pose de propaganda, pelo governante? E, se forem, terão a verticalidade de lhe demonstrar que o desporto, enquanto componente da inclusão é vítima da política excluente do governo? À 19 anos, na associação que dirigia, em debate sobre desporto, critiquei o gasto de 25% do orçamento da colectividade com 0,1% dos associados, precisamente os desportistas. Nada me movia contra o desporto, mas revoltava-me a miséria de milhares de pessoas com deficiência abandonadas pelo governo, equiparado ao actual, capitaneado pelo actual presidente da república. Distraímo-nos, não aprendemos a lição; agora temos os resultados, seja no desporto, seja na gigantesca exclusão, seja na penúria/asfixia das mesmas associações que iniciaram o desporto adaptado. Morto o «sonho», resta-nos o «atroz pesadelo»! Que fazer? Que farão os frustrados atletas? Esperamos que não recriminem as associações; desejamos que esta lição lhes sirva para compreender que a prática desportiva há-de ser mais uma vertente dessoutra prática cívica plasmada no reforço, na ajuda às associações, como evidente caminho aberto ao sucesso desportivo, e rumo ao futuro inclusivo, real espaço de todas as realizações de todas as pessoas com deficiência!...
Joaquim Manuel Cardoso

quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

Revolta em Setembro


Não serei capaz de explicar, mas, quando chega Setembro, fico taciturno, meditabundo, perpassam-me certos acontecimentos, certas memórias, certos mitos; quando produzi, na rádio local, um programa dedicado à música e cultura portuguesas, evadiu-me, algumas vezes, a reflexão sobre esse formidável mito: as férias!
Iniciado esse mágico período, parece que tudo esquecemos, tudo fica longe, o mundo veste-se de fantasia! Nada menos verdadeiro, menos real; partamos seja para onde for, os nossos «fantasmas» acompanham-nos, as nossas «angústias» colam-se à nossa pele, e, logo que regressarmos, nada de novo, excepto a frustração do «fim das férias»!
Adocicaram-nos o pretérito mês com os jogos olímpicos, com milhares de «festas» e «festinhas», mas roubaram-nos o subsídio de férias, deram mais passos para destruir a educação pública de qualidade, encarniçam-se na ofensiva contra a saúde, quem sabe, quantos cidadãos teriam morrido, este mês, por ausência de cuidados terapêuticos? Não saberemos, porque a «liberdade de expressão» é cativa da ditadura do capital, e esses eventuais crimes escondem-se, porque os algozes precisam usar a «rasgada bandeira» dos direitos humanos, para prosseguir e alargar a guerra «humanitária», pasme-se «guerras humanitárias», para roubar os recursos, para, dominados os povos, desencadear a mais feroz exploração, a «guerra de classe», na linguagem despudorada dos carrascos.
Pois é! Passaram, como o vento, as «míticas férias», mas a fome, a miséria, a guerra, o desemprego, a exclusão, a corrupção, essas continuam, vieram para ficar!... São atributos distintivos destas elites tão decadentes, tão corruptas, tão cruéis, que não encontramos os adjectivos para descrever, com realismo/rigor, este pântano de lama putrefacta que nos rodeia, nos cerca, nos intoxica, e, se não o transformarmos, nos há-de matar… não há requiam para cantar por tantos defuntos, se nos deixarmos matar/morrer, dormindo sobre as almofadas de penas (tormentos) que nos infligem, todos os minutos, todas as horas, todos os dias… Sampaio da Nóvoa, no discurso alusivo ao Dia de Portugal clamou por mais conhecimento; apesar de presentes, para mostrar as «belas gravatas», pois o conhecimento faltava, os governantes eram surdíssimos, doutro modo, não desprezavam a escola, não atiravam, quais peças velhas da máquina, mais de 40 mil professores para o desemprego.
Sabem o que espanta o mensageiro? Não é esta criminosa política, pois vinda de quem vem, isso é natural; o que espanta, o que surpreende é que uma catadupa de protestos, uma explosão gigantesca de indignação não tenha aparecido!... o que perturba é este conformismo, esta apatia, este torpor, quando, para agradar aos algozes ditadores do capital, temos rapazinhos capazes de assistir, de se comprazer, com a fome,  com a miséria, com o sofrimento dos seus compatriotas…
Será verdade que «cada povo tem o que merece»? Não creio nesse dogma, mas que somos mesquinhos, que somos cobardes, que vivemos à espera de satisfazer os nossos interessezinhos, as nossas delirantes ambições, isso, desgraçadamente, não pode negar-se.
Li um apelo, que subscrevo integralmente: que, em Setembro, nos revoltemos, que deixemos de ter vergonha de denunciar, de protestar, de reclamar, que sejamos, enfim, cidadãos de corpo inteiro, que utilizemos os nossos direitos, as nossas liberdades, a democracia para, com severidade/justiça, azorragar (chicotear) estes verdugos!...
Joaquim Manuel Cardoso