sábado, 31 de janeiro de 2009

Indução

É muito comum na sociedade em que vivemos, em especial depois do 11 de Setembro, olharmos para as pessoas de um modo suspeitoso quiçá mesmo aterrador: islâmicos/arábes até indianos, nos levam a pensar que estes constituem uma ameaça poderosa à nossa civilização. É a criação do preconceito que rapidamente se espalhou .

Aqui vos trago um link para um pequeno filme que creio nos pode levar a pensar que... as coisas nem sempre são o que aparentam ser...

http://www.metacafe.com/watch/2281856/woman_in_the_plane/

Educação para todos - sociedade inclusiva

Transcrevo na íntegra artigo publicado na "Página" sobre Educação para todos - sociedade inclusiva da autoria de Ana Cristina Lavandeira Simões


"As escolas regulares ... são meios ... para combater as atitudes discriminatórias, para criar comunidades abertas e solidárias, construindo uma Sociedade Inclusiva e atingindo a Educação para Todos ..." in Declaração de Princípios de Salamanca (1994), documento cujo ponto 7 refere como "princípio fundamental das escolas inclusivas" (:..) que todos os alunos devem aprender juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e diferenças que apresentem."

O conceito "inclusão" deverá ter uma aplicação mais vasta porque qualquer criança em qualquer altura da sua vida escolar e/ou extra-escolar pode ter dificuldades educativas e/ou sociais (as que dizem respeito à sua etnia, classe social, etc.) e será com os seus pares que ultrapassará essa fase, prosseguindo o seu desenvolvimento. Desta forma as mudanças que ocorrem no sistema educativo irão beneficiar todas as crianças.

Por outro lado, o desenvolvimento humano constrói-se em relação com o meio e com os outros. O indivíduo influencia mas também é influenciado. É nesta perspectiva que todos podem contribuir, para melhorar a nossa Sociedade. Pretende-se assim, atingir uma "Sociedade participada" por todos, porque cada um tem algo de útil para o desenvolvimento da Humanidade, potenciando a participação dos mais diferentes grupos e/ou indivíduos . As várias diferenças conjugam-se para o mesmo fim: a "construção" de uma Sociedade Inclusiva sem preconceitos onde todos têm direito à sua individualidade.

O processo de construção da personalidade passa pelo reconhecimento das capacidades e dificuldades de cada um, respeitando as diferenças, baseando a Educação em atitudes e valores que tornarão a criança mais consciente e solidária. Cada criança, durante o processo de desenvolvimento, está a contribuir para o desenvolvimento dos outros. O ser humano desenvolve-se em interacção social, especialmente através da cooperação entre pares. Segundo o ponto 8 da Declaração de Princípios de Salamanca "... pedagogia inclusiva é a melhor forma de promover a solidariedade entre os alunos ...".

Em todos os conteúdos educativos, as atitudes do Docente são, geralmente, imitadas pelas crianças. Por esta razão o Profissional de Educação tem que estar atento e disponível, adoptando uma planificação flexível e versátil para as ajudar a progredirem tanto quanto possível. Estas deverão participar nessa planificação e respectiva avaliação. A referida planificação deve ser baseada numa pedagogia diferenciada e em técnicas de cooperação (cada criança aprende ao seu ritmo, com estratégias diversificadas mas em conjunto com os seus pares).

A criança tem que ser vista como um todo e não repartida em sectores. A criança que está na sala de actividades é a mesma que tem uma família, com as suas dificuldades e necessidades diferentes. Nenhuma família é igual à outra porque é composta de indivíduos todos diferentes uns dos outros. (A referida família está inserida numa Sociedade, toda ela heterogénea). Uma das funções da Escola é proporcionar à família a interacção Escola - Família, tendo como objectivo o envolvimento activo dos pais/Encarregados de Educação no processo de desenvolvimento dos seus educandos.

A inclusão pode começar no Sistema Educativo mas não faz sentido se não transpuser os muros da Escola.

A Educação inclusiva requer uma reestruturação a nível da Sociedade, onde todos os parceiros deverão trabalhar em equipa (Escola, Família, Comunidade, Estado, coordenação entre os diferentes Ministérios: Educação, Segurança Social, Emprego, Saúde, Finanças ...) reflectindo e avaliando-se continuamente, respondendo às necessidades de todas as crianças / jovens / adultos.

Será como uma continuação educacional igual à praticada no sistema educativo, uma verdadeira Cultura que respeita o princípio "...o direito à Educação de todos os indivíduos ..." (Declaração Universal dos Direitos do Homem), entendendo Educação como a formação ao longo da vida.

Ana Cristina Lavandeira Simões
Educadora de Infância

A FOME ANDA À SOLTA

Não vale a pena dizer o contrário nem vir diariamente para a média afirmar e jurar a pés juntos que vivemos num mar de rosas. Rosas mesmo só de espinhos.
Nas ruas, avenidas ou praças das nossas cidades ouvi-las ou nos caminhos das nossas mais remotas aldeias a grande verdade é que a fome de todos os tipos assentou arraiais. Ela é a fome de alimentos, de saúde, de educação, de cultura, de justiça, de solidariedade, de convívio e de tudo aquilo que o ser humano necessita.
Não vale a pena os programas roseados das televisões porque esta droga apenas anestesia as pessoas enquanto os seus corpos e as suas almas se afogam no desespero.
Não vale a pena mentir. A verdade é só uma: o Capitalismo é geneticamente destruidor da dignidade humana e muito mais quando falamos de pessoas com deficiência. A saída é só uma e passa inexoravelmente pela luta contínua por uma sociedade mais justa.
Matos Almeida

Pela PAZ

Um artigo sobre a recente guerra que Israel lançou contra o mártir povo palestiniano, onde se descreve o que aconteceu a um general do Hamas, dá para perceber a hipocrisia de uns e a dificuldade da construção da sociedade inclusiva.
Esse general é o lider operacional do Hamas. Não tem as duas pernas. Numa das multiplas agressões de Israel foi atingido por um míssil disparado por um helicoptero. Nesta guerra de 2009 ficou com a casa completamente destruida. As forças Israelitas telefonaram-lhe informando que tinha 5 minutos para abandonar a casa.
Pela forma como é dada a noticia até parece que houve benevolência dos Israelitas. A casa tinha de ser destruída mas como quem nela habitava era deficiente há que ter consideração. Hipocrisia, cinismo!!
As pessoas com deficiência lutam pela paz pois têm consciência que só em harmonia se consegue alicerçar uma nova sociedade.
Não à hipocrisia, não ao cinismo!!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Silêncio

“O que mais me preocupa
Não é, nem o grito dos violentos,
dos corruptos, dos desonestos,
dos sem-carácter, dos sem-ética.

O que mais me preocupa
É o silêncio dos bons”

Martin Luther King

Vigilância Necessária

A dimensão da crise parece imprevisível; alguns analistas foram dourando o cenário, fazendo crer que isto é uma gota num copo de água, afirmando que a tempestade passaria.

Mas a realidade assustou-os; agora os menos enfeudados aos interesses começam a preocupar-se, temem, já, as consequências profundas e futuras.

Perguntam: E quando a protecção social desaparecer? Haverá, mesmo, riscos de fome? E, se houver, que sucederá, pois a fome é péssima conselheira? Os medos de convulsões sociais graves irrompem; a estabilidade paradisíaca prometida pelo neoliberalismo desmurona-se, como castelos na areia; aliás, todas as promessas neoliberais foram, são e serão sempre imensas falsidades, enormes enganos que se vão descobrindo, à medida que os sinais da crise se revelam na verdadeira dimensão.

Os fundamentos da ordem social neoliberal tremem e cedem; quem garante, neste pântano, os Direitos Humanos? Quem, nesta estrondosa confusão, é capaz de assegurar o bem-estar? Quem é capaz de deter o espantoso crescimento da pobreza? Quem tem a coragem de dizer: construiu-se, com habilidade perversa, durante as últimas décadas, a mais fantástica mentira.

Quem pergunta: porque foram sendo pedidos e impostos sacrifícios sempre aos mesmos? Ninguém é responsável por esta fantástica mentira? Quando a verdade é clara, fogem aqueles que nos roubaram a possibilidade de erguer outro mundo; acoitam-se no vago discurso, renegam o que disseram, abjuram as suas tão seguras convicções, e mesmo as verdades que diziam científicas reduzem-se, perante as evidências, a «conversa fiada». Ruiu a racionalidade esplêndida que arvoravam para vender o modelo económico que permaneceria para sempre e traria, finalmente, o «sonho do paraíso». Talvez digam que sou pessimista; não nego, mas o pessimista é um optimista esclarecido, é alguém que depurou esta verborreia incontinente que não resiste à realidade que nos atormenta.

Diga-se o que se disser, a deficiência fragiliza, apesar de tanta luta, a igualdade está longe: na saúde, na educação, no trabalho, nos transportes, e em outros muitos direitos que, com pertinácia, alguns têm reclamado, sofrendo, mesmo dos seus pares, tantas incompreensões; tem sido, repetidamente, demonstrada a relação deficiência/pobreza; torna-se urgente a vigilância sobre os Direitos Humanos das pessoas com deficiência, porque estas crises destroem a coesão social, subvertem os valores éticos apregoados raiz da dita «civilização ocidental» que é, de facto, a mais feroz barbárie cuja atrocidade real corremos risco de conhecer na verdadeira crueldade.

Joaquim Manuel Cardoso

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Onde pára a sociedade inclusiva?

Fui gentilmente convidada a participar neste blog por um “companheiro de luta”, Henrique Mendonça. É uma honra poder participar, de alguma forma, para a sensibilização daqueles que lêem este blog para as questões da igualdade na diversidade e da não-discriminação, em prol de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
Partilho convosco este texto:

“Sociedade inclusiva é uma sociedade para todos, independentemente de sexo, idade, religião, origem étnica, raça, orientação sexual ou deficiência; uma sociedade não apenas aberta e acessível a todos os grupos, mas que estimula a participação; uma sociedade que acolhe e aprecia a diversidade da experiência humana; uma sociedade cuja meta principal é oferecer oportunidades iguais para todos realizarem o seu potencial humano. Limitar-me-ei a discutir pessoas com deficiências, mas é importante lembrar que algumas das estratégias para a construção de uma sociedade inclusiva serão as mesmas para todos os grupos actualmente prejudicados, os quais podem provocar as mudanças políticas necessárias com maior rapidez, trabalhando juntos e apoiando-se mutuamente. Muitos termos têm surgido relativos à deficiência: reabilitação, integração, normalização, plena participação, igualdade, inclusão, todos focalizando o indivíduo. O indivíduo deve ser reabilitado, integrado, incluído, tornando-se normal. Em muitos desses conceitos ele é visto como objecto passivo de uma intervenção profissional. Não temos voz para dizer como desejamos ser reabilitados e nos tornar normais, e para que fim. O indivíduo carrega o problema. O facto de eu não poder subir escada é culpa minha e não do legislador, que não prescreveu rampas e elevadores. É problema do surdo não entender o noticiário na TV, não do canal de televisão, que não fornece texto escrito nem linguagem de sinais. O termo "sociedade inclusiva", por outro lado, coloca a sociedade como aquela que deve mudar.
Pelo mesmo motivo, não gosto da expressão "portador de deficiência". Ser "deficiente" é desviar-se de uma norma. O que significa "humano” para a condição humana? Quem decide isso? Homens de 20 a 40 anos ou bebés de um ano? Pessoas com 70 anos ou mulheres grávidas no autocarro, com muitos sacos de compras na mão e uma criança de três anos, cansada, na outra? "Deficiente" é um termo absoluto e global. Precisamos de palavras que descrevam as nossas limitações em actividades particulares e que apontem a possibilidade de compensar essas limitações.
Trabalho na Organização Mundial de Saúde com essa finalidade. Mas, não importa o termo que usemos em referência a nós mesmos, devemos revesti-lo de conteúdo positivo. Precisamos ter orgulho de pertencer a uma minoria sem privilégios, que trabalha muito e com eficiência, num esforço global crescente, no sentido de melhorar seu status legal e material no mundo. Outros grupos já fizeram isso antes de nós. Por exemplo, negros e homossexuais nos Estados Unidos e na Europa já conseguiram mudar, lentamente, as conotações negativas desses termos.
Não importa sobre a inclusão de que grupo esteja a falar, existem factores que facilitam a inclusão na sociedade, alguns deles indispensáveis: são as provisões para o bem-estar em geral. Isso significa um sistema de instituições públicas protegidas pela lei e supervisionadas pelo processo político, que garantam a todos:

a) serviços de saúde pública, incluindo serviços de prevenção, tratamento e reabilitação, e provisão de recursos de assistência;
b) educação obrigatória desde o jardim de infância até os 18 anos, pelo menos, dirigida para o potencial do indivíduo;
c) apoio financeiro na forma de pensões, compensações e bem-estar social para os que não podem trabalhar devido à idade, doença, deficiência ou condições do mercado de trabalho;
d) uma política de mercado de trabalho com instrumentos e programas de treino vocacional, colocação e treino no emprego;
e) uma política de mercado de habitação que garanta habitação segura e com instalações sanitárias para todos.

Além dessas provisões gerais para o bem-estar, há necessidade de políticas públicas e instrumentos políticos para investimentos em infra-estrutura, como transporte, telecomunicações, media e cultura, com acesso igual para todos.
Sem tais políticas públicas, em minha opinião, será impossível atingir uma sociedade inclusiva. Sem aumentar o nível de bem-estar para todos, é difícil melhorar as condições de vida de grupos minoritários, que ainda não tiveram acesso à sociedade. Isso é verdade em todos os países. Trabalhar para uma sociedade inclusiva, portanto, é um projecto a longo prazo para muitas gerações, mas devemos começar esse trabalho hoje!
Surge frequentemente o argumento de que as nossas sociedades não podem investir em mudanças de longo alcance, necessárias para que todas as minorias sejam totalmente incluídas. Temos o desafio de apresentar estudos provando que tais investimentos são lucrativos para a sociedade. Existem estudos demonstrando que muitos investimentos na área de inclusão de pessoas deficientes levam a economias futuras para a sociedade, que ultrapassam em muito seus custos. Entretanto, devemos ser cuidadosos. Exigimos serviços de saúde adequados, moradia na comunidade em vez de em instituições, oportunidades educacionais e emprego. Esses são direitos humanos básicos. Direitos humanos não devem ser discutidos em termos de custos ou de lucros.
Além disso, há outros ganhos que não os meramente económicos. Quando uma distribuição de renda muito desigual cria inveja e ódio, quando a avenida do progresso individual na sociedade está fechada para a maioria devido ao sexo, cor da pele ou deficiência, quando muitos vêem o crime como a única saída para ter condições de vida decentes, quando nem arame farpado, nem segurança, nem recursos electrónicos são suficientes para fazer com que os ricos se sintam protegidos, quando até os pobres temem que alguém mais pobre e mais desesperado possa tomar o pouco que possuem – numa sociedade assim, qualquer investimento em mais igualdade será benéfico para todos. Da mesma forma, viver numa sociedade em que deficiente algum tenha de pedir esmolas na rua, em que deficientes não sejam confinados em instituições e possam viver com a família ou sozinhos, ou constituir sua própria família, em que deficientes possam educar-se e trabalhar da mesma forma que seus irmãos e irmãs, amigos e vizinhos não deficientes, viver sabendo que uma deficiência não é uma catástrofe para o indivíduo e sua família, isso eleva a qualidade de vida para todos.
Além das provisões gerais para o bem-estar que acabo de enumerar, as exigências para uma sociedade que inclui pessoas com deficiências referem-se a um planeamento global de tudo aquilo que se relaciona com transporte, construções, ferramentas e instrumentos, informações, comunicações, media e cultura. Devem ser abolidas leis e regulamentações que distinguem indivíduos com deficiências e os excluem de direitos civis como casamento, filhos, voto, trabalhar como jurados, gerir negócios etc.
Mas, mesmo após todas essas mudanças, ainda haverá pessoas que, para exercer todas as funções, precisam de serviços de assistência pessoal, como eu, ou de leitores, no caso de serem cegas, ou, ainda, de intérpretes de sinais, se tiverem dificuldades de audição.”

Adolf D. Ratzka
Director do Instituto de Vida Independente, Estocolmo, Suécia
Setembro 1999


Creio que se não tivesse colocado a data em que este discurso foi proferido numa Universidade brasileira, todos pensariam que tinha sido escrito ontem… O termo alterou: de “deficiente” para “pessoa com deficiência”. E o resto?

DURA LIÇÃO

O neoliberalismo e o capitalismo mais selvagens criaram uma linguagem codificada que ganhou, entre os escrevinhadores ignorantes – voz do dono – servos submissos dos grandes grupos económicos reputação de «moderna», mesmo quando nem se interrogavam sobre os conceitos que pretendiam exprimir; não fazia falta conhecer o significado dos «escrevinhos», porque tinham certa a maquia que recebiam pelos meios de comunicação social, aliás propriedade do grande capital, pela publicação de «cortejos de burrices», sempre que cumprissem o desígnio «alienar as multidões» ávidas de falso modernismo, outra ilusão que inflamava o ego de leitores que, na verdade, não procuravam ler, mas dizer que tinham lido, ouvido e, sobretudo, visto; pouco importava que não tivessem entendido nada daquelas algaraviadas, eram «modernos».

Qualquer consumidor medianamente atento da comunicação social identifica, sem excessivos esforços críticos, a linguagem mítica/mágica que, à longo tempo, seduz pela ausência de significado, os analfabetos funcionais, incapazes de compreender o real conteúdo de qualquer mensagem; por isso os «donos do gado» matam o mensageiro, logo que este faz o seu ofício: «esclarecer/explicar».

A infinidade dos conceitos corruptos na linguagem do neoliberalismo merece análise:

«Desenvolvimento» oh! Que conceito/palavra mágica! Serve para tudo, porque, nesta comunicação putrefacta, não significa «coisa nenhuma».

Agora, quando o desemprego cresce desmesuradamente, de acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) chamarão «desenvolvimento» a essa catástrofe que gerará mais de 200 milhões de pobres? E «desenvolvimento» será chamada a «rapina financeira» promovida, impunemente – pelo menos por agora – à escala planetária? E «desenvolvimento» será o surto de miséria que se aproxima – salvo se outra política [socialismo (verdadeiro)] – fôr praticada?

As pessoas com deficiência recordar-se-ão que são: «os mais pobres, entre os pobres»? que lhes poderá suceder neste negro futuro que se anuncia? Quantas vezes observo fortemente amargurado a dependência desta comunicação mentirosa/alienante das pessoas com deficiência! e o que mais me espanta, primeiro, e indigna, depois, é que, por mais esclarecimento que se divulgue, a comunicação, por mais manipulada que seja, é sagrada!...

Sabe-se que o «oprimido» defende, contra si mesmo, a ideologia do «opressor»; a crise trará mudança?... o tempo – mestre insubornável – há-de dar «dura lição»!...

Joaquim Manuel Cardoso

NEUTRALIDADE

Um texto do Joaquim Cardoso abaixo, a propósito da neutralidade política das associações de pessoas com deficiência, fez-me lembrar uma experiência associativa já que passei por várias.
É costume certos lacaios do poder que chegam a dirigentes de certas associações acusarem as mais reivindicativas de estarem ao serviço dum determinado partido. Porém, não há como examinar estas afirmações e compará-las com os relatórios de actividades das mesmas associações. Assim a associação de carácter pidesco no seu relatório afirmava que tinha sido recebida pelo Grupo Parlamentar do PS enquanto que a que era acusada de partidária afirmava no seu relatório que tinha sido recebida por todos os grupos parlamentares. Claro, que não vou dizer aqui os nomes dessas associações mas quem não for "ceguinho" e estiver minimamente informado facilmente tirará conclusões.
Não sou defensor da indicação de voto por parte dos responsáveis associativos, mas não me repugna que em tempos eleitorais tornem públicas as acções políticas de cada partido acerca das pessoas com deficiência.
Matos Almeida

Etiquetas e preconceitos

Infelizmente é falado em inglês.
Mas os preconceitos e estigmas racistas que estão protagonizados neste filme demonstram um dos muitos obstáculo na construção da Sociedade Inclusiva.
Lutar contra todas as formas de discriminação é contribuir para a construção da Sociedade Inclusiva


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sonho Dourado

A Europa deixou-se enfeitiçar, desde a segunda guerra pelo olhar mais sedutor do deus mercado.

O paraíso terrenal vendia-se com as mais requintadas técnicas de aliciamento, com os mais refinados métodos de sedução, imaginando, da felicidade erótica, à desmedida riqueza; tudo era possível, o deus mercado tinha nas mãos (sujas) todas as poções mágicas para transformar simples mortais em semi-deuses, em heróis, em super-homens capazes de tudo vencer!... o deus mercado foi hipnotizando a multidão, os escribas do deus, os grandes grupos económicos, foram dilatando a riqueza, foram aliciando, mesmo os que deveriam resistir, foram erguendo um fantástico jogo de mentiras sórdidas que poucos compreendiam e ainda menos criticavam; para que o negócio florescesse, matavam-se os mensageiros, censurava-se, a golpe de cheque, a comunicação social e a alienação, qual rio enfurecido, inundava de demência todos os órgãos cuja subsistência se baseava em audiências, atraídas pela banalidade, pela estultícia, pela grosseria, pela loucura.

O monstro cresceu, hipertrofiou-se e a gangrena apareceu!... procura-se quem salve, agora, o deus mercado, à beira do seu próprio inferno? Eis o fogo que queima a mentira, a malícia, a sedução, o embuste mais espantoso da História...

O sedutor deus transformou-se em demónio; e que faz? Revela a corrupção mais abjecta, desvenda crimes ocultos, mostra, afinal, que os «homens de bem» eram «maléficas criaturas» tão sádicas que inventavam, com laivos de infinita maldade, o paraíso sonhado, convertido, subitamente, no mais atroz inferno.

Tanta corrupção, tanta mentira, tanto embuste... os distraídos já teriam despertado do «sonho dourado»? pois o ruído ensurdecedor do desastre imenso do deus mercado vai acabar com o «maldito sonho» agora vão chorar, vão lamuriar, vão (quem sabe) entender que o «sonho dourado» foi «tremendo pesadelo»...

E as pessoas com deficiência vogavam nesse sonho! E, quando as queriam acordar, como «crianças birrentas» estrebuchavam... chorem, agora, na «caminha» que é lugar quente»... é o alto preço da adoração devota ao cruel deus mercado... ««entre mim mesmo e mim, não sei o que se levantou, que tão meu inimigo sou»»!... os amigos avisaram, porque «é preciso avisar toda a gente», mas eram abominados... «o tempo da verdade» acaba de chegar!...

Joaquim Manuel Cardoso

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Dar Passos

As pessoas com deficiência precisam, urgentemente, de ser lúcidas; carecem de ser firmes; imperativamente devem ser conscientes, devem varrer preconceitos, mitos e outras alienações que servem, às mil maravilhas, para perpetuar a exclusão.

Recordo o dia 08 de Novembro de 1991, quando o coronel Vila Lobos – eis Secretário Nacional da Reabilitação e fundador da APD – nas comemorações do 20.º aniversário da publicação da Lei 6/71, dizia: [tantos abutres pousados nas costas dos deficientes] Duras, mas sábias aquelas palavras. Quando, 1981, - Ano Internacional das Pessoas com Deficiência – foram criadas organizações de pessoas com deficiência, foi dado um passo histórico que parece, entre nós, desconhecido.

Espanto-me perante a passividade das pessoas com deficiência, desgosta-me, profundamente, a propensão para a querela inútil, desagrada-me o conformismo, abomino o isolacionismo praticado por algumas associações, especialmente de pessoas com deficiência visual.

Que vantagens traz o isolacionismo? Outra atitude que me aflige é a pouca apetência para fundamentar com a legislação certas reivindicações; viveremos em qualquer planeta diferente? Quando ouço tantas lamúrias sobre a exclusão, quando se lamenta esta pasmaceira, quando se vocifera contra a rotina, porque não se entende a causa da progressiva exclusão? Porque não se percebe que as crises castigam sempre os mesmos, os pobres? (pessoas com deficiência incluídas) como há-de mudar-se este panorama desolador? Muda-se, mudando; muda-se, sacudindo a poeira mental e partindo com decisão e audácia para a luta pela inclusão.

Se nada fizermos, não somente não chegaremos à inclusão, mas veremos cada dia perder direitos, conquistas e, um dia destes, a própria dignidade; e, quem sabe, a Vida.

É hora de escolher o caminho… cabe-nos dar os passos…


Joaquim Manuel Cardoso

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

CQC

Neste pequeno vídeo vemos bem a incomptencia de certos políticos, nomeadamente em relação ao valor do salário mínimo.
Este ano é ano de eleições. Está na nossa mão mudar a política que há mais de 30 anos nos (des)governa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Grandes superfícies obrigadas a colocar rótulos em braile a partir de hoje

As grandes superfícies vão ser obrigadas a colocar, a partir desta quinta-feira, dia 22 de Janeiro de 2009, rótulos em Braille nos seus produtos. No entanto, quer a associação que representa estes locais quer a associação que representa os cegos dizem que poderá haver alguns atrasos, devido ao volume de encomendas dos aparelhos para fabricar estes rótulos

As grandes superfícies vão ser obrigadas a colocar rótulos em braile nos seus produtos, a partir desta quinta-feira, muito embora nem todos estes espaços o façam para já por causa de alguns atrasos.

A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição lembrou que os fornecedores não conseguem responder a todos os pedidos e que, tendo em conta o investimento em causa, as grande superfícies não tiveram tempo para se adaptarem nos seis meses que foram dados.

«Estamos a falar em muitos milhões de euros de investimento que as empresas têm de fazer para apetrechar as lojas com os equipamentos necessários para dar cumprimento à lei. Foi necessário que empresas de informática trabalhassem no sentido de criar uma solução específica para este objectivo», explicou José António Rousseau.

A ACAPO - Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, reconhece que os supermercados têm feito um esforço para colocar as etiquetas em braile nos seus produtos e diz compreender as dificuldades das grandes superfícies.

«Temos algumas informações que nos permitem perceber que algumas cadeias de supermercados terão alguma dificuldade em ter o serviço completo a funcionar não porque não se tenham empenhado, mas porque optaram por um sistema que pressupõe a aquisição de material», explicou Carlos Lopes.

Este elemento da ACAPO confirmou ainda que «o fabricante destes materiais tem um volume grande de encomendas e não está a conseguir dar resposta e portanto poderão verificar-se pequenos atrasos».

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Memória e Crítica

Desde muito novo, em resultado da experiência vivida em habitat rural pobre, interessei-me pela «causa social». Revoltavam-me as injustiças, afligia-me atrozmente a miséria dos que trabalhavam e a opulência dos ociosos detentores da terra; doía-me, no inverno, quando chovia, que os jornaleiros agrícolas fossem forçados a pedir esmola aos seus exploradores, pois, se não podiam trabalhar, não recebiam e isto durava, às vezes, semanas e meses; se não mendigassem, não poderiam alimentar os filhos numerosos.

Não, não, não li estas tristes tragédias em romances, embora os escritores mais ilustres narrem estas ignomínias; vivi-as e conservo a revolta.

As gerações mais jovens não conhecem estas vexações: porque os seus familiares, não sei (ou talvez saiba) porquê, não lhe falam do passado; e a educação – de classe – esconde a realidade que era viva à 50 anos, iludindo, distraindo, mentindo, com computadores e tudo quanto possa hipnotizar as crianças/jovens, retratando o «mundo maravilhoso» fantasiado pelos detentores do poder para que aceitem, como fatalidade, a atrocidade da exploração, a dureza da guerra, a ignomínia da doença e o vexame da fome. Quando emergem crises, como sucede hoje, que nos dizem? É preciso despedir mais e mais trabalhadores; é necessário reduzir os gastos sociais (suprimir a inclusão); e outras receitas anti-humanistas.

Quem se lembra de ouvir dizer os poderosos que é preciso moderar os lucros? E quem recorda governantes preocupados, de verdade, com o permanente crescimento da pobreza?

É confrangedor ouvir sempre as mesmas propostas; será por falta de imaginação? Será fatalidade? Nem uma coisa, nem outra; a ganância da riqueza, a impunidade perante toda a sorte de irresponsabilidades, a rendição dos governantes, seduzidos por um punhado de notas, eis a explicação para o clima de corrupção indisfarçável que, dizem alguns, conduziu a esta crise. Claro que a ganância e a irresponsabilidade pesaram nesta tragédia, mas a verdadeira causa faz temer os poderosos que inventam todas as soluções que servem para não resolver o problema.

Joaquim Manuel Cardoso

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Questões dum Deficiente Perplexo

Na azáfama de dirigente associativo que exerço à 40 anos, tenho ouvido, muitas vezes, questionar: devem as associações dar orientações de voto aos seus associados/representados?

Ordinariamente os estatutos definem-nas como neutras em opções políticas; não reprovo essa definição, mas é, de verdade, acatada? São abundantes os rumores que certas instituições influenciam, claramente, os utentes nas suas escolhas eleitorais; esses rumores não foram desmentidos, apesar de ninguém assumir a prática da manipulação. Analisando o estado da inclusão, conhecendo a hipocrisia de certas forças políticas, especialmente constatando a permanente e impune violação sistemática do quadro legal que assegura e constrange à promoção de políticas inclusivas, fico seguro que, não condicionando as escolhas eleitorais dos seus associados/representados, as associações não podem deixar de evidenciar um conjunto de programas políticos incompatíveis com a inclusão.

Conhece-se algum governo conservador que tenha dinamizados políticas inclusivas? Conhece-se qualquer governo que tenha suprimidos serviços públicos capaz de incluir as pessoas com deficiência? Que escola, excepto a escola pública, conduz à escola inclusiva? Salvo honrosas excepções as grandes empresas multinacionais desenvolvem programas de emprego para pessoas com deficiência? Quem encontra, após a privatização dos transportes, nas zonas interiores, transporte público? E, falando de transporte adaptado, isso é miragem.

Como e quem explica certa obstinação dos empresários pela redução da «taxa social única»? quem tem tais propostas pensará no futuro digno de milhares de trabalhadores, quando deixarem de trabalhar? Retornaremos à «alcofa e bordão do mendigo»?

Pois é! Neutralidade ideológica quererá dizer «conformismo/resignação» fatalistas à exclusão?

Precisamos levantar estas questões, precisamos saber que futuro para a pobreza – pessoas com deficiência incluídas – que cresce de modo assustador, parecendo a única promessa que os nossos governantes, outrora tão magnânimos, nos podem fazer agora? Poucos sabem como e quando acabará esta crise, mas muitos sabemos que o «deus mercado» é implacavelmente cruel; todos sabemos que a fome de milhões não incomoda os poucos que são responsáveis impunes por uma das mais graves crises dos últimos séculos.


Joaquim Manuel Cardoso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Conselho

As greves dos professores, 03/12/2008 e 19/01/2009 são derrotas para o autoritarismo enquistado no Ministério da Educação; ouvindo a ministra, tenho dificuldades para a distinguir dos ministros do Estado Novo: no ódio à escola pública; na acrimónia aos sindicatos; na prepotência.

Bem acolitada por secretários de estado subservientes, assanha-se na guerra contra os professores, faz todos os malabarismos para os depreciar na sua justa luta; alimenta, com o favor da submissa comunicação social, guerras de números, quando sabe que está derrotada, quando sabe que é abominada por todos os que defendem a escola pública, quando mente, sem pudor, pois sabe que a famigerada avaliação não tem que ver com a qualidade pedagógica, mas com a opção por mão de obra barata, porque o dinheirinho faz falta para alimentar clientes, amigos e compadres, confortavelmente sentados à mesa do orçamento de estado.

É preciso e oportuno dizer que a luta dos professores é a luta pela escola inclusiva, pois somente a escola pública pode garantir a inclusão, que necessita de docentes motivados, disponíveis, e esta conflitualidade é inimiga da inclusão.

Aos pais e familiares de alunos com deficiência deve dizer-se «esta é também a nossa luta»! não nos deixemos embalar pela falinha carregada de veneno e peçonha dos titulares do ministério da educação; aquilo são, à semelhança do Governo, «mentirosos empedernidos»! gente digna de credibilidade faria uma de duas coisas: negociava com lealdade; desaparecia, porque nada é menos digno que o apego ao poder, perante o menosprezo tão largamente manifestado pelo país.

Joaquim Manuel Cardoso

Eleições para o Parlamento Europeu

Nós, os mais de 50 milhões de cidadãos com deficiência na União Europeia, apoiados pelo Fórum Europeu da Deficiência, representando uma em cada quatro famílias com uma pessoa com deficiência e 15% do vosso eleitorado, temos o potencial para fazer a diferença nas Eleições Europeias. Apelamos a si, candidato às Eleições de Junho de 2009 para o Parlamento Europeu, que se comprometa a incluir as nossas exigências na sua campanha política e no seu futuro papel como membro de Parlamento Europeu.

Todos os cidadãos da UE serão convidados a participar nas eleições para o Parlamento Europeu, o processo democrático directo mais importante da União Europeia, que terá lugar em Junho de 2009. É uma oportunidade única para os futuros membros do novo Parlamento Europeu de assumirem o compromisso para mudanças concretas que assegurarão aos cidadãos com deficiência o pleno gozo dos seus direitos civis, sociais, económicos e políticos.

Nós queremos que seja salvaguardado direito a participar no processo de tomada de decisão na UE e usufruir dos direitos das pessoas com deficiência em todas as áreas nas políticas quer nacionais quer da UE

NADA SOBRE NÓS SEM NÓS

domingo, 18 de janeiro de 2009

Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência

Em 2006, foi aprovada, na ONU, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Produto de um trabalho que demorou mais de 3 longos anos, esta Convenção é muito importante para as pessoas com deficiência. Em Portugal, ao fim de 2 anos, esta Convenção, ainda não foi ratificada . Temos de agir para a pôr em prática.
Por agora aconselho uma reflexão sobre o seu Artigo 10

Artigo 10.º
Direito à vida

Os Estados Partes reafirmam que todo o ser humano tem o direito inerente à vida e adoptam todas as medidas necessárias para assegurar o seu gozo efectivo pelas pessoas com deficiência, em condições de igualdade com as demais.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Massacre hediondo

Não podemos ficar calados a ver o que se passa na Palestina. os sionistas continuam a matar na maior prisão do Mundo, que é Gaza, indiscriminadamente mulheres, crianças e velhos. Destróiem-se hospitais, universidades e todas as estruturas básicas para a vida dum povo.
Em nome duma terra prometida o estado de Israel vêm cometendo atrocidades há mais de 60 anos com a cumplicidade da dita "Comunidade internacional". Não podemos aceitar que uns se autodenominem filhos eleitos de um deus e com esta razão possam sacrificar, massacrar e eliminar outros povos. o deus de Israel é talvez o deus mais sanguinário. quem tiver dúvidas pode ler, com olhos de ver, o "Antigo Testamento". Temos que lutar contra estas barbaridades porque numa sociedade inclusiva não pode haver benefícios ou prejuízos em nome duma religião seja ela qual for.

Matos Almeida

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Recordar o 2º Centenário de Louis Braille - Acordar os Cegos

A celebração, 2009, do 2º centenário do nascimento de «Louis Braille» deve ser preservada do «vírus» putrefacto do oportunismo do Poder Político e deveria restaurar a vocação das pessoas cegas para ser «actores», em vez de se conformarem com a manipulação, como «marionetas» num jogo de falsos filantropos tão prolixos no discurso, quanto abjectos na acção.

Quando, 1926, foi fundada a Associação de «Beneficência Louis Braille», fez-se História, porque os cegos que compreenderam, embora marcados pelo contexto, a necessidade de organizar uma associação que possibilitasse a sua inclusão pressagiaram a épica luta que hoje somos forçados a travar; o que pode surpreender, actualmente, é a passividade das associações de pessoas cegas, bem como idêntico comportamento de grande parte destes cidadãos que parece foram tocados pela inércia; isto é tanto mais espantoso, quando existem inúmeros cegos com graus elevados de formação intelectual cuja compreensão do contexto excluente talvez devesse mobilizá-los para agir, superando preconceitos, conformismos e ilusões que não valorizam capacidades nem promovem direitos.

Porque comemorar «Braille» convoca a fazer História, faça-se «História» do percurso das pessoas cegas, na larga e sinuosa estrada da inclusão.

Um cego ilustre – injustamente esquecido – dizia: «as humilhações e vexames sofridos, ao longo do tempo, pelos cegos bradam aos Céus».

Frase sábia, mas inquietante, porque nos transportaria a comportamentos e práticas intoleráveis, seja à luz da religião, seja no universo dos direitos humanos.

Quando, na década de 60 (século XX) com pouca sabedoria, por influência perniciosa e estrangeirada, lançaram as pessoas cegas na escola dita normal, foi desencadeada por muitos professores e tecnocratas pouco sábios uma campanha miserável contra as associações de pessoas cegas; porquê? Para favorecer clientelas, para ocultar ignorâncias, porque os lugarzinhos proporcionavam conforto e benesses.

Faltou, nessa época, especialmente após Abril, audácia para combater esses oportunismos, pois um punhado reduzido de cegos sustentou, apesar de imensos passivismos e incompreensões, esse combate, arrostando, algumas vezes, infâmias imerecidas.

É verdade que o trabalho das associações se degradou, mas é fundamental procurar as causas do entorpecimento das organizações, se quisermos entender o posterior letargio que conduziu à perda de influência na elaboração de legislação e intervenção no caudal de lutas pela inclusão desenvolvidas, seja no Secretariado seja no Conselho Nacional de Reabilitação (Dec-Lei 346/77/08/20) que produziram resultados positivos, embora longe das nossas aspirações.

Afinando a história seria importante aprofundar situações que prejudicaram várias pessoas cegas em algumas empresas, factos que passaram ao lado das associações, porque a defesa desses representados poderia molestar alguns dirigentes, mais propensos à panaceia dos gabinetes, que à protecção de direitos.

Recordar «Louis Braille», há-de acordar as pessoas cegas (e suas associações) do pesado sono da apatia: fugir ao isolacionismo; regressar e contribuir para a unidade do universo associativo; esclarecer as pessoas cegas sobre as ilusões das novas tecnologias, sem menosprezar a sua importância; assumir, sem reservas, que a inclusão das pessoas cegas é «questão de Direitos Humanos».

Eis o caminho radioso que «Louis Braille» abriu…
Sejamos dignos da memória do paladino da inclusão dos cegos…

Joaquim Manuel Cardoso